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JNB - COLUNISTAS
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| uma questão de opinião |
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Velha profissão no novo mundo   - Mas chefe - disse eu. - Eu não posso me mostrar com uma dessas pessoas “públicas” em público! O gravador entre pratinhos e copos num barzinho da orla... As minhas quatro filhas estudam num colégio de freiras. A minha esposa e eu frequentamos a Igreja Nossa Senhora dos Desvalidos. Nós somos respeitados por toda comunidade paroquial. Padre Hans Wolfgang, seu patrício, não iria gostar nada dessa parada em que você quer me meter... -   - Osório - disse o chefe. - Osório, não seja tonto! Use o telefone! Você se esqueceu que se trata de uma entrevista com uma call girl? Com uma massagista?   As perguntas criteriosamente preparadas, as folhas de papel presas na pranchetinha de acrílico - a mulher tinha saído para levar as crianças à escola - peguei o telefone sem fio e comecei a discar.   Os primeiros oito números estavam ocupados. Do intenso movimento nas linhas telefônicas deduzi uma ocupação animada em outro âmbito, em outra esfera... Finalmente, na nona tentativa, logo no décimo sexto toque atendeu a voz sonolenta de uma mulher.   - Boa tarde - disse eu. - Meu Nome é Osório Matos da Silva Oliveira. Eu sou reporter do novo jornal virtual “Der schlaue Brasilienreisende”. Um informativo para turistas e empresários européus. Nossa intenção é mostrar ao visitante em potencial tudo que o Brasil tem a oferecer de bom e bonito, aproximando-o ao máximo do nosso país... Uma entrevista com uma massagista, de uma profissional do sexo iria iluminar um tema mais que obscuro até então. Uma realidade, que em nossa opinião não deve ser ignorada por mais tempo... Se você fizer o favor de me responder algumas pergu... -   Um “clic” se fez em meu ouvido e eu estava de novo sozinho e no início de minhas tentativas. Continuei a discar, ouvindo o sinal de ocupado. Insisti, procurando novos números nos classificados do jornal local e discando de novo. De repente atendeu uma voz de homem. Surpreso, me sentindo apanhado num flagrante delito, desliguei o telefone.   Pensamentos grotescos invadiram o meu cérebro de heterosexual e homem macho. Menos a idéia de ter discado errado. Afinal de contas propagam, recomendam e apregoam naqueles anúncios todo tipo de Apolos, Adonis, Hércules e Zulús tanto a sua incansável prontidão como seus dotes físicos. Um chegou a vangloriar-se falando em 25 centímetros de sua descomunal masculinidade e eu me perguntei, de que maneira alguém poderia chegar a um resultado desses... Onde se poria o início da fita métrica. No “zero”? Como diante do perigo eminente de um metro do tipo “craveira”, daquela régua de seção quadrada grossa de madeira com escala, alguém poderia atingir a ereção...   Finalmente atendeu a voz de uma moça. Uma garota de vinte anos, natural de Vitória da Conquista, com nome de Leidejane. Com o meu coração batendo mais forte procurei uma saída rápida para evitar que me batessem de novo o telefone na cara. De repente surgiu a idéia salvadora.   - Oi - disse eu. - Eu tenho um amigo estrangeiro, solteiro, que não fala português direito. Ele não quer passar a noite sozinho. Por isso ele me pediu para que o ajudasse em arranjar uma acompanhante. Posso lhe fazer algumas perguntas nesse sentido? -   Leidejane - Naturalmente - gorjeou a jovem.   Der schlaue Brasilienreisende, doravante DsB - Quanto você cobra por uma noite? O anúncio no jornal menciona o valor de R$ 80,00   Leidejane - 60 Reais mais táxi ida e volta são para duas horas. Para a noite inteira cobro R$200,00. Em que hotel está o seu amigo? Qual é o nome dele? Uma vez conheci um alemão chamado Manfred... -   DsB - Hans Wolfgang está no Pero Vaz de Caminha Plaza e está esperando um telefonema meu. Diga-me, como você resolve o problema da comunicação, quando o seu cliente não sabe nada de nosso idioma, nadica de protuguês? -   Leidejane - Não vejo problema nisso. Eu não sou tão experiente como outras profissionais, mas sou muito inteligente. Estou financiando os meus estudos com este trabalho. Você compreende? Você não prefere saber de mihas medidas, saber, como sou físicamente? Não quer que eu lhe descreva a minha pessoa? -   DsB - Eu gostaria de saber como você consegue deitar-se na cama e ter intimidades com uma pessoa que você não conhece, com quem não consegue trocar uma palavra sequer... ? -   Leidejane - Mímica! Eu falo com as mãos, com o corpo todo. Além do mais, cada um de nós sabe o que um espera do outro. -   DsB - Hans Wolfgang tem um forte chulé e halitose...tem um bafo de urubú brabeza -.   Leidejane - eu sei o que fazer para que ele tome um banho e escove os dentes... Você não gostaria de saber como é o meu corpo? Sou mulata, bonita, tenho 1,69 de altura e todos os dentes, peso 56 kg, sou do tipo violão... Bumbum grande seios pequenos, cabelos pretos do tipo rasta até o bumbum ... faço tudo... quase tudo... -   DsB - Você faz questão que o seu cliente use camisinha? O meu amigo me disse que não gosta de transar com preservativos. -   Leidejane - Por mim, o seu amigo pode colar de suor e ter um corpo frio e pegajoso e cheirar como um peixe morto há tempos... Contra isto posso fazer algo. Uma possível transmissão de HIV só posso evitar usando camisinha. Sem preservativo não faço programa.! -   DsB - Mesmo se ele aumentar o seu cachê? -   Leidejane - Por dinheiro nenhum no mundo -   DsB - E se ele na hora “aga” não conseguir colocar aquela borrachinha? -   Leidejane - Estes detalhes você pode deixar comigo. Tenho cá os meus truques” -   DsB - Muito bem, agora vou ligar para o Hans Wolfgang. Lhe telefono mais tarde! -   Leidejane - Diga ao seu amigo que eu cobro R$ 250,00 ... pelas condições de extrema insalubridade. Imagine se eu pego uma frieira, ou chatos, ou ácaros, baratas... ou coisa pior...-   Coloquei o telefone de lado e anotei os pontos mais importantes. Não satisfeito, liguei para mais alguns números da coluna “acompanhantes”. Adriana, uma gaúcha loira de 29 anos, com 1,73 de altura, cobraria a fortuna de R$ 700,00 por uma noite, enquanto Márcia, uma morena clara citava o valor de R$ 360,00. Conceição, uma jovem afro-brasileira de 18 anos, com cabelos curtos pixaim, faria o mesmo programa por apenas R$ 70,00.   Essas informações deixaram evidente uma regra brasileira: quanto mais escura a pele - menor salário, vigorava também na mais aniga das profissões...   De noite, nós estávamos com visitas, tocou o telefone. Angélica, a nossa menorzinha, como sempre atendeu, anunciando o nome da pessoa que ligou, dizendo o que ela queria... Em seguida ligaram todas as outras, querendo saber do paradeiro do cliente em potencial. Assunto, que a esta altura eu já havia esquecido. A primeira chamada foi de Leidejane. Conceição ligou quatro vezes, Márcia duas e finalmente Adriana.   Eu havia esquecido que alguns telefones hoje em dia possuiam aqueles aparelinhos que registravam o número das chamadas recebidas...   Foi uma tragédia ter que explicar à minha querida e santa esposa todos aqueles telefonemas... diante das crianças e das pessoas mais importantes da paróquia Nossa Senhora dos Desvalidos... inclusive Padre Hans Wolfgang. copyright by Reinhard Lackinger Quo Vadis comida típica? Será que podem mesmo? Será que conseguem isto realmente? Será que os petiscos, tira-gostos e pratos, outrora típicos na Europa Central, atualmente são tão fáceis de encontrar nos bares e restaurantes europeus? Será que os sabores cultivados por nossos pais e avós, na Áustria, na Alemanha, na Suíça ou na França, merecendo o predicado "comida típica", são tão comuns como dizem, fazendo parte de qualquer cardápio no país de origem? O europeu mudou muito de uns 50 anos para cá. Eu sou da época das vacas magras do pós-guerra. Conheço a magia das iguarias preparadas com ingredientes simples. É o que servimos para quem freqüenta o bistrô PortoSol. O europeu de hoje já não conhece a penúria de outrora e as vacas parecem tão obesas quanto ele próprio. O europeu da atualidade é bem de vida e por isso exige e consome produtos elaborados e refinados. O que não é obrigatoriamente sinônimo de felicidade gastronômica! Lembro-me de um episódio curioso durante uma das nossas visitas à minha terra natal, a Áustria. Chegando lá, parecemos troféus que parentes e amigos gostam de exibir. "O pessoal do Brasil !" Volta e meia somos convidados para almoçar em um restaurante. Detesto esses programas, pois prefiro lugares simples e aconchegantes com comida caseira. Nossos queridos amigos e parentes têm outra idéia de um almoço de domingo e nos levam a lugares chiques, ou o que na concepção deles possa ser chique. Qualquer gesto meu de desagrado é quitado com um beliscão por parte de Maria Alice, que se apressa em me lembrar de quem vai pagar a conta E como eu detesto aqueles restaurantes chiques na Áustria! Odeio o estacionamento feito para uns 200 carros e mais duas dúzias de ônibus. Odeio igualmente as instalações inóspitas, que facilmente comportariam ao mesmo tempo três festas de casamentos, 5 aniversários e 8 reuniões do International Womens Club. Esses galpões gigantes, lembrando instalações de fábrica ou hangares de Boeing 747. Foi com esse astral, sentindo-me um camundongo na Basílica de São Pedro, que a garçonete me entregou o cardápio. A listagem de comes e bebes pesava uns 5 quilos, o que de qualquer modo significa mal agouro. Ainda mais, se a capa é de couro. Com medo do que ia encontrar, pedi o que queria comer e que deveria ter em qualquer restaurante de minha terra natal, a Estíria: um assado de porco! - Não temos - , respondeu a garçonete vestida de traje típico. - Assado de porco não há, mas o senhor pode comer um "Cordon bleu!" Entre beliscões e olhares de desaprovação de Maria Alice escolhi uma comida menos refinada possível daquele desfile de pratos sofisticados. A bem da verdade, a vista daquele restaurante no Sulmtal na Estiria, Áustria é linda. Alguns dos austríacos mais malucos chamam aquela região de "a Toscana da Estíria". Talvez tenha sido esta a razão, ou melhor, o desatino, de terem plantado ciprestes no meio daquela linda terrinha, desfigurando completamente a paisagem original. Depois da refeição pedi uma daquelas típicas aguardentes produzida naquela região de intenso cultivo de frutas. Aguardente de ameixa, de pêra, de maçã, de pêssego, de damasco... - Não temos -, disse a garçonete... - as o senhor pode beber um Cointreau...- Antes mesmo de exclamar :- ora, vão p´ro diabo!- , senti outro beliscão nos meus pneus laterais... É por isso que ouso duvidar que europeu possa achar as iguarias que servimos no nosso bistrô Portosol em qualquer restaurante na Alemanha ou na Áustria. O fato de já termos servido Pratos de Queijo e mostarda tipo Dijon a turista francês, Salada Grega para grego e Cevapcici para croata, reforça a minha teoria. Depois de uma segunda olhada, os turistas austríacos resolveram encarar salsichão com mostarda forte entre outras coisas e parecem ter adorado. Os pratos que haviam deixado a cozinha com salsichas e bistecas, chucrute e maionese de batata, voltaram vazios e as cumbuquinhas de mostarda pareciam ter sido lambidas. Para ver o ar de satisfação daqueles turistas austríacos é só ver as fotos na página do bistrô : www.reg.combr.net/bistro.htm P.S. - Quem duvidar dessas minhas linhas ou pensa que esse fenômeno só se apresenta na Europa, que preste atenção da próxima vez em que comer um acarajé num certo condomínio fechado em Lauro de Freitas, onde a baiana resolveu substituir o camarão seco por uma camarão da Maricultura.... copyright by Reinhard Lackinger Pequeno afrodescendente na sombra Vou até o bar na sala, preparo uma caipirinha. Bebericando volto à varanda. Percebo que dos quatro garotinhos havia ficado apenas um. Deitado de bruço, vestindo apenas bermudas, bem defronte de meu prédio. Corpinho miúdo de pele escura, assimilado pela sombra das marquises. O sono do menino era tão profundo, que nem a batucada no ponto do ônibus, promovida pelos últimos frequentadores da Praia do Porto, muito menos os golpes de facão, rachando casca de côco, parecem incomodá-lo. Um automóvel branco se aproxima. Um Fiorino. Dele salta uma mulher de pele clara, vestindo roupas elegantes e o seu penteado testemunha visitas frequentes no cabeleireiro. Em suas mão carrega um pequeno pacote. - Nova freguesia para o quiosque de frutas - penso e tomo outro gole. Mas não! Aquela senhora se aproxima do garoto deitado no passeio como se quisesse abraçar o planeta, cuja idade estimo em 8, no máximo 10 anos. Um remorso repentino rasga meu peito. Que envergonha. Tem um filho de Deus deitado no meio da rua onde moro e ninguem se importa. Eu inclusive. Eu também poderia ter ido até ele, dando-lhe algo para comer, presenteando-o com uma velha camiseta minha... Quem será que é aquela senhora de caridade? Uma sucessora de nossa bondosa Irmã Dulce, que Deus a tenha em bom lugar... um tipo Madre Teresa de Calcuttá? Uma daquelas pessoas destemidas, prontas em ajudar a todos que sofrem, sem fazer perguntas... Realmente, lá, na sombra da noite tropical, está deitado um verdadeiro “irmão necessitado” Nós, bem nutridos ativistas de grupos de jovens católicos da Europa Central, outrora coletamos dinheiro para figuras como ele, vendendo jornais na praça da igreja, caminhando de casa em casa, fantasiado de São Nicolau.... Essa senhora deve ser uma serva abençoada de Deus, se não uma santa... Mas o que vejo? Ela toca o menino com a ponta do pé! Bem, quem sabe? Talvez eu esteja enganado e o menor não é nenhum órfão inocente e sim um pequeno e perverso malfeitor. Parece haver meninos à beça hoje em dias, que desde cedo cometem todo tipo de delitos. Àquela senhora pode ser do juizado de menores e veio para levar esse jovem criminoso de volta para a FEBEM. Raciocinando um pouco..., se esse franzino afrodescendente fosse delinquente perigoso, dificilmente mandariam uma mulher e sim uma dúzia de soldados da Polícia Militar, manuseando cacetetes grossos e compridos, acordando o pequeno anjo de ébano de seus sonhos num piscar de olhos. Em vez disso vem uma senhora fina e o toca suavemente com sapatos de grife... Inicialmente pensava que seria mais adequado, sacudí-lo com a mão... Isto porém poderia ser interpretado como gesto paternalista e piegas, podendo até afugentar o garoto negro. Cada toque com o pé parecia dizer: acorde, levante, venha comigo vem tomar um banho, vai receber novas roupas, um jantar, uma cama limpa para dormir... Igual como fazia nossa santa Irmã Dulce com inúmeras crianças de rua, velhos e doentes, órfão dessa sociedade impiedosa. Acompanhando os acontecimentos percebo com interesse crescente, como o pequeno afrodescendente começa a se mover. Após o oitavo ou décimo chute nas costelas, ele ergue a cabeça e olha para a sua benfeitora. Essa diz algo para o rapaz, que eu cá da varanda, no quinto andar do meu prédio, não consigo escutar... Presumo que o pacote, que ela segura em suas mãos, seja uma merenda deliciosa, destinada sem dúvida para a criaturinha de Deus, que finalmente achou alguém que lhe estendesse a mão... Já não sinto mais vergonha por não ter feito nada. A culpa pela minha omissão havia se transformado em um tipo de satisfação, em poder participar desse drama de amor cristão. Mas o que vejo agora? O jovem negro se levanta e vai embora sem hesitar. "Que ingratidão! Que ousadia!", desabafo decepcionado e termino meu drinque... A senhora de caridade havia mostrado tão boa vontade... Mas meninos de rua são assim mesmo! A liberdade deles é tudo! Eles fogem de instituições públicas como o diabo foge da cruz. “Lá, eles só seriam maltratados”, afirmam sempre, quando um grupo de jovens tomba na rua, assassinado por esquadrões da morte e os sobreviventes são encaminhados para uma dessas casas administradas pelo governo. Esse menino de rua deve estar fugindo pelo mesmo motivo. Meus olhos o acompanham. Passando pelos montes de melancias, jacas e côcos, ele some da minha vista. O Fiorino branco volta a se mover. Devagarzinho, com a roda dianteira enviezada para o meio-fio, o automóvel se arrasta para cima do passeio, estacionando exatamente no lugar, onde até há pouco ainda dormia o pequeno afrodescendente. O motorista desce do veículo, tranca as portas, verifica as fechaduras cuidadosamente, junta-se à mulher com pacote na mão e ambos desaparecem no prédio vizinho.. copyright by Reinhard Lackinger A Careca de Nelson Sampaio Quando encontrei Nelson da Silva Sampaio ontem de manhã no elevador, assustei-me. Nosso vizinho do apartamento 801, de uma hora para outra, havia raspado a cabeça. Meus olhos foram imediatamente atraídos por essa coisa redonda, marrom claro e brilhante, como se fosse uma ventosa ótica. O que devia fazer, para não dar bandeira? Agir, como se não houvesse absolutamente nada, que merecesse a minha atenção especial. Tentei um “bom dia”, fiz uma cara de paisagem e apertei com cuidado excessivo o botão para a segunda garagem. Isso foi um erro. A garagem de Sampaio fica no mesmo andar da minha. Ele certamente havia percebido a minha surpresa, fruto de sua novíssima careca. Ele devia contar com algo assim, pensei, quando o elevador parou no terceiro andar e o novo morador do 302 se juntou a nós dois com uma saudação alegre. Fitei o rosto do novo passageiro, esperando qualquer reação sua, em razão do visual de Nelson Sampaio. Esperei em vão. O novato, cujo nome não sei, já que mora apenas há uns quatro ou cinco anos no mesmo prédio, não parecia nem um pouco impressionado com a nova careca do nosso vizinho. Nunca desejei tanto que um dos ocupantes do elevador contasse uma anedota. Só assim poderia dar vazão ao sorriso represado desde o quinto andar, onde moro. Por mais idiota que fosse a piada, eu poderia dar uma boa gargalhada, sem correr o risco de me denunciar por estar de gozação com a careca ridícula e repentina de Nelson Sampaio. Olhando bem, no rosto de Sampaio não havia fortes traços negróides. Sua pele era mais claro que um cappuccino. Como se tivesse adicionado várias gotas de leite a mais que o normal. Nelson da Silva Sampaio poderia ser confundido facilmente com um europeu das regiões do mediterrâneo, se não fosse seu cabelo pixaim. Agora, a carapinha dera lugar a uma careca. No lugar do mulato de sempre, estrava na minha frente um cara parecido com Yul Brynner depois de veranear em Bom Jesus dos Pobres. Só que o olhar de Sampaio era ainda mais penetrante do que aquele do heroi dos cinemas de minha juventude. O que será que ele pensou quando decidiu pela mudança radical de seu penteado? Pensava ele poder deixar de pertencer à parte negra da humanidade, ao eliminar sua vasta cabeleira africana? A careca reluzente não chegou a clarear sua pele nem um pouco. Será que Nelson da Silva Sampaio e todos os Costas, Santos e Oliveiras comparam realmente a cor de sua epiderme, suas características raciais todo dia e o dia todo com a do próximo? Provavelmente. Caso contrário, ele jamais teria submetido sua cabeleira à máquina zero e à navalha. Creio que deve ser o inferno, ser negro, quando na alma queima o desejo de ser branco. O elevador parou no play-ground e Marneyde, a empregada doméstica do apartamento 701 arrastou-se cabine adentro. Ela vestia um uniforme cor-de-rosa com um aventalzinho branco. Todo o resto, como extremidades, rosto, pescoço, com excessão dos globos oculares, dos dentes e das palmas suas mãos, era preto como os botões no display de controle do elevador. Eu tive que usar toda a minha força de vontade, para não deixar que meu olhar migrasse da jovem vistosa diretamente para o rosto de Nelson Sampaio. Ele provavelmente concluiria, que eu estava comparando a cor de sua pele com a de Marneyde. Por isso cravei os meus olhos fixamente na parede do elevador. Por que será que essa tonta tinha que pegar o elevador, se ela sabia que nós iríamos até as garagens, enquanto ela queria subir para o sétimo andar? A moça deveria ter esperado no térreo... Ela jamais poderá supor, que desastre poderia ter causado com o seu passeio. Um gesto impensado de minha parte, um olhar atravessado ou uma risada, teria sido suficiente, para que eu fosse denunciado por racismo. O que farei daqui p’ra frente, se Sampaio um dia aparecer com uma peruca loira? Desde ontem acho que ele seria capaz de algo assim. Vejo tempos penosos à minha frente. À partir de hoje deixarei de tomar o elevador, preferindo enfrentar as escadas. copyright by Reinhard Lackinger Olha que lindo ! Não somente o meu linguajar montanhês ficou inalterado apesar de décadas de ausência de minha terra natal, a Áustria. O mesmo acontecia com meu desejo de comer um assado de porco, um salsichão de sangue, linguiças e uma carne de fumeiro com veios acentuados de gordura, com chucrute e batatas. Eu dava preferência a restaurantes, onde tudo isso junto chegava à mesa dentro de uma grande e fumejante terrina de louça. Justamente naquele dia maravilhoso do mês de maio, o meu apetite estava prestes a desaparecer. Quanto mais eu tinha que escutar aquelas exclamações de júbilo “ó que lindo!”, maior era sombra que começava a deitar-se sobre o meu bom humor inicial. Na verdade, eu gostaria de compartilhar a opinião dos outros com o mesmo fervor. Era impossível! Eu também gostaria de saudar esse dia imaculado de primavera, como faziam as minhas queridas patrícias, pois era o espetáculo da natureza e o milagre de Deus, com os homens trabalhando em conjunto para tornar o meio-ambiente ainda mais convidativo. Eu simplesmente não pude! Embora quisesse entoar no mesmo tom, por amor a minhas parentas austríacas, eu não consegui sair da pele de quem já vive há muitos anos no Brasil... Tudo em nosso redor era lindo e maravilhoso e merecia ser elogiado: as flores do campo na relva, o zumbido alegre dos insetos, as matas em diversas nuances de verde... Mesmo assim, o meu mal estar crescia com cada “ó que lindo!” Enquanto a minha mãe falava do verde da paisagem que nosso caminho cortava, Steffi e Poldi se ocupavam de minha mulher Alice. O banco de trás do meu carro parecia um mirante. Mal avistavam algo interessante, gritavam em coro: “ó que lindo!” Olhe Alice, “ó que lindo!” Ao passar por uma típica casa de fazenda dos alpes, com um balcão cheio de flores: “ó que lindo!” Avistavam na curva seguinte a torre de cebola da igreja e os telhados de uma pequena aldeia, emoldurada por uma viçosa vegetação como ovos de páscoa no jardim: “ó que lindo!” Se o mundo é lindo parece depender não só de uma linda vista, como também do ponto de vista de quem o observa... Quando Steffi e Poldi visitaram o Brasil com a minha mãe, não pareciam muito entusiasmadas com as nossas belezas naturais. Embora Alice e eu nos esforçássemos em mostrar-lhes Salvador, - a minha terra por opção - dos ângulos mais favoráveis, não colhemos nenhum tipo de reconhecimento. Elas não se deixavam impressionar por nossas paisagens deslumbrantes, nem pelas atrações arquitetônicas. Quando finalmente mostravam interesse por alguma coisa, era sempre a construção errada, um altar coberto de ouro e outros objetos secundários, os narizes enfiados nas páginas do guia ilustrado trazido da Europa. Nenhum “ó que lindo!”. Alice e eu insistimos em arrastar as queridas parentas austríacas para os pontos turísticos mais importantes da Cidade do São Salvador. Aqui um forte numa praia de águas límpidas com bosques de coqueiros, lá o maior e mais importante conjunto de arquitetura colonial da América do Sul, 365 Igrejas católicas, mosteiros, museus, mais palmeiras, gigantescos arbustos de hibiscus floridos, avenidas, edifícios pósmodernos, shopping centers, mangueiras e beija-flores... Tudo isso no clima mais agradável que o planeta pode oferecer e embaixo de um céu de brigadeiro... Os esforços foram em vão! Embora nossos olhos fitassem cada lugar interessante e bonito como se fossem ventosas de um polvo apaixonado, acreditando que Steffi e Poldi também grudassem nas mesmas belezas, nós não conseguíamos impressioná-las... Nem diante do por do sol à beira mar com água de côco geladinha elas sairam de sua postura impassível. Pareciam vacinadas contra as belezas naturais e os monumentos brasileiros. Que a minha mãe nunca tivesse morrido de amores pelo Brasil era compreensível. Toda mãe deve odiar o país, que lhe roubou o filho. Por que as outras duas não sucumbiram diante de toda magia da Boa Terra era um mistério para nós. Será que Steffi e Poldi queriam ser solidárias com a minha mãe, que roncava até durante o auge de um show folclórico? Certamente que não! Devia haver outra explicação pela falta de entusiasmo por nossa cidade. Conversando com Alice, cheguei à seguinte conclusão: Steffi e Poldi são professoras. Por experiência própria sabia quanta importância pedagogas austríacas davam à “forma externa dos trabalhos”. Caligrafia torta e mal legível era consequentemente desaprovada. Mesmo se o texto contivesse observações interessantes. Escrita bonita embora medíocre, era desejada e elogiada... Em termos de “forma externa” a Cidade do Salvador realmente não merecia nota melhor que um dois, ou no máximo um três. Em alguns pontos da cidade até um zero. Era isso! Os defeitos de nossa cidade tão exótica se imiscuiam sem o mínimo pudor em todos os retratos tirados, eram presentes em todo lugar. A pobreza gritante, os inúmeros exemplos da urbanização precária, o lixo nas ruas, as paredes de tijolo sem reboco, bem como a multidão de crianças seminuas nas sinaleiras, estendendo as suas mãozinhas escuras por uns trocados... Que adianta a água do mar cristalina com um tapete de areia fina acariciando as nossas solas dos pés, se temos de partilhar a praia com meninos de rua, que nem roupa de banho decente têm para vestir... que rolam aos gritos na areia perto da gente, parecendo larvas empanadas... Salvador, Bahia, Brasil, segundo tais padrões é exótico demais para cabeças de visitantes da Europa Central. Eles não enxergam a vida através de tanta gente nas ruas e praças... A desordem da sociedade baiana não combina com o mundinho saudável e certinho dos austríacos. O turista vira a cara aflito, dedicando-se a pontos turísticos notáveis, quer dizer, a coisas que ele conhece de vídeos de propaganda do turismo receptivo. Objetos como os altares dourados da igreja de São Francisco, sobre os quais ele pode ler no seu guia ilustrado, que sempre carrega consigo... Eu queria mostrar para as queridas viajantes uma árvore que crescia no telhado de um prédio, quando fomos acossados novamente por um grupo de crianças. Imediatamente evaporou o interesse naquele planta curiosa, exemplo de força vital tão típico e simbólico para o Brasil... Ficou apenas o aborrecimento causado pelos meninos pelados, que nos importunavam, observando-nos famintos, com olhos de cachoro pidão. Nós os afugentamos, virando-lhes as costas. Um ar de nojo em nosso rosto reforçava nossa postura de rejeição explícita... De repente Steffi avistou na sombra de uma ruína barroca um gatinho. “Olha o gatinho!”, exclamou satisfeita, demonstrando intensa alegria. “Olha o coitadinho do gatinho cuticuti! Meu Deus, ele não é encantador?“ Se nós, Alice e eu, durante todos aqueles passeios turísticos pela Cidade do Salvador não fomos capazes de arrancar de nossas parentas austríacas um único “olha que lindo! sequer“, colhemos pelo menos um “olha o gatinho!“. Que Deus presenteie aquele felino com uma ratazana bem gorda! copyright by Reinhard Lackinger Pontualidade Baiana. Não importa a que resultado a gente chegue. Em Salvador, Bahia, nada parece acontecer no horário previsto... Com excessão do Jornal Nacional da Globo, que começa pontualmente entre 20:00 e 20:15 e que em seguida dá lugar à novela das oito. De segunda-feira a sábado. Podemos observar a importância da pontualidade e sua precisão de povo para povo, através de diversos idiomas. A saudação matutina alemã “Guten Morgen” é usada na Europa no máximo até às 10:00 horas. Já um “bom dia” baiano vale até o meio dia, quando é trocado repentinamente, como se fosse cortado pela navalha de um carrasco, por um “boa tarde”. Quando cai a noite tropical, lá pelas 18:00 horas, se diz “boa noite”. Mesmo que para muitos o dia esteja apenas começando. Compreendemos a precisão da pontualidade pela maneira como é expresso o horário. Se eu dizer por exemplo que uma reunião marcada por mim deverá começar às 8:25, o baiano mostra um sorriso indulgente. Afinal, quase todos já tiveram contato profissional com europeus. Na Bahia se marca reuniões com a participação de um número considerável de gerentes e diretores para a “primeira hora da manhã”. Isto tanto pode significar sete e meia, como também 8:45. A reunião começará de fato lá pelas 10:00 horas, mas isto já é outro cafezinho... Logo depois do almoço, promete um outro, o que nos convida novamente a uma interpretação bastante elástica. Depois das trovoadas vespertinas... logo após a novela das oito... entre nove e meia e dez horas... cochicha-se através de cabos telefônicos. Novatos em matéria de Bahia podem chegar à conclusão errônea de que os baianos não possuem relógio... Pode até ser que alguns baianos tenham-se libertado do julgo de qualquer horário. Mas isso não tem nada a ver com o uso ou não de relógios de pulso. Baianos raramente possuem apenas um relógio. Às vezes têm vários, a fim de que a pulseira combine com o restante da roupa. Há baianos que desfilam com uma linda “Omega Seamaster Professional Diver”, ou um relógio “Fila” com um Styling diferenciado, marca “cult”, da hora, estando em conformidade com a tendência “Fashion and Sports”... com laser embutido, além de vários outros detalhes sofisticados, como medidor de altura e de profundidade, Yachttimer e outros extras de causar inveja. Alguns relógios são resistentes à exigências mais elevadas, aguentam expedições ao fundo do mar e mergulhos a profundidades de mais de 500 metros. Há também valiosos relógios esculpidos em ouro e brilhantes. Jóias, que por medida de segurança, só podem ser usadas dentro de uma caixa forte. Meninos de rua farejam um “Rolex” ou um “Polaris Aluminium” a vários quilômetros contra a brisa salgada, que lambe as cristas das ondas do Atlântico sul ao longo do litoral Brasileiro. Que um relógio deva possuir também um mostrador, significa pouco para a maioria dos baianos. Esse tipo de acessório serve apenas para nós, que esperamos pacientemente. Serve exclusivamente para constatarmos de minuto em minuto, de hora em hora, por quanto tempo aguardamos a presença dos que se atrasam sempre para o encontro. Quem como eu não consegue ser impontual, espera em cada encontro em média 51 minutos... Um fardo, com que um europeu, radicado na Bahia, tem que conviver. Outro dia, quando por volta do meio dia me encaminhei para visitar o meu amigo Manuel dos Santos Filho em seu Escritório, a fim de almoçarmos juntos, encontrei no saguão do prédio um velho conhecido, que não via desde a época da faculdade. Nem me lembrava do nome dele e por isso não me preocupava em puxar nenhum papo... Uma calorosa saudação teria que ser o suficiente... “Bom dia”, disse, dirigindo-me ao antigo companheiro, “como vai”?“Boa tarde”, corrigiu-me o ex-colega com um sorriso triunfante.“Boa tarde”, repeti ligeiramente perturbado, olhando para o meu velho cronômetro digital „Citizen“. O sujeito descarado tinha razão ! No meu relógio já era 12:01, um minuto depois de meio dia ! copyright by Reinhard Lackinger Proselitismo “cervejístico”. Quem pensa que os pecados contra os costumes do copo se restringem à mistura de Whisky com Guaraná, não sabe da missa a metade. Refiro-me à forma pouco ortodoxa de se beber cerveja por essas plagas. Como o Brasileiro prefere o chope à cerveja em garrafa, ainda há esperança. Consumidores desta bebida milenar, que até hoje cometem a heresia de beber a cerveja quase congelada e em copos de geleia de mocotó, ainda podem ser salvos. Com jeitinho se aprende a curtir o pleno prazer de sorver “a loira”. Num copo com “design” correto, bem lavado e enxaguado com água fria, numa temperatura adequada e com uma “coroa de espuma” - algo mais que o conhecido “colarinho” - imprescindível para a degustação perfeita. Gelada demais, a bebida não só perde o sabor, como também esconde eventuais defeitos. Tanto na cerveja quanto no vinho branco. Uma tulipa de cerveja tirada da garrafa com jeito e competência, não tem apenas a boa aparência de um chope. Até o gosto se aproxima muito do líquido dourado, extraído do barril. Enquanto eu não conseguir convencer os bebedores de cerveja em aderir ao meu modo de “celebrar a loira”, vou exorcisando o diabo com o belzebu, servindo-a “estúpidamente gelada”. copyright by Reinhard Lackinger Reinhard H. Lackinger, nascido na Áustria e residente na Bahia a mais de 35 anos. Formado em Administração de Empresas pela UCSal, posgraduado em Administração Hoteleira pela UFBA e formado em Yorubá. Tambem é escritor com livros publicados em alemão. Fundador e presidente da Associação Anti Poluição Sonora da cidade do Salvador. Para enviar seus comentários,Clique Aqui | ||||
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